O presidente e o
torneiro mecânico

Conversinha para boi dormir

   Não sei se você ficou sabendo mas o FHC passou por sérias dificuldades. Tudo começou quando pararam de chamá-lo para fazer palestras. A alegação é de que ele fala muito e agora que não é mais presidente ninguém tem obrigação de aturar.
   Logo depois a justiça seqüestrou seus bens por estar investigando uma denúncia que afirma que o nosso ex tem mais milhas aéreas acumuladas que o Papa.
   Em seguida, um problema no sistema – justo ele que sempre foi tão a favor do sistema - congelou suas quarenta e cinco aposentadorias por tempo indeterminado. E o pior é que nem aos amigos ele pode recorrer. Os velhos caciques do PSDB viram seus cocares desmilinguirem-se à luz da nova ordem política. Sem poder e na oposição eles rumaram inexoravelmente para o ostracismo. Tucanos em frangalhos. O Serra, por exemplo, deixou crescer a barba e as unhas e virou cover do Zé do Caixão. O Nelson Jobim pirou e acha que é o Tom. Passa os dias em Ipanema cantando as meninas quem vêm e que passam num doce balanço a caminho do mar. Até os banqueiros deram as costas ao ex-amigo, mandando travar a porta giratória toda vez que ele tentasse entrar em uma de suas agências, aqueles ingratos.
   Enfim, não havia mais a quem apelar. Sem alternativas a curto prazo para sustentar Ruth e todos os filhos de suas relações extra-conjugais, FHC pôs a beca de lado, controlou seu orgulho e foi fazer um curso no Senai. Aprovado com louvor por conta de suas notas expressivas, em pouco tempo já conseguiu o que tanto buscava: um emprego. A partir daí sua vida novamente deu uma guinada. Feliz com mais esta grande vitória pessoal resolveu compartilhá-la com alguém que certamente se identificaria com ela. A conversa transcrita a seguir foi gravada sem a autorização e o conhecimento dos envolvidos e nos foi cedida gentilmente por Antônio Carlos Magalhães:
   - Quem queria falar com ele?
   - Fernando Henrique.
   - Quem?
   - Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente, não é?
   - Ex-presidente da onde?
   - Do Brasil, evidente!
   - Sei... um momentinho que eu vou ver se ele está.
Neste momento, ouve-se na espera telefônica do Gabinete da Presidência da República o hino do Corinthians. Em francês. Então:
   - Alonzanfã, grande Maluf! Você não perde essa mania de imitar a voz dos outros, hein, irmão? Agora imita alguém importante, vá. Eu não vale que é fácil demais. Já sei, nosso cardiologista, o Enéas!
   - Ô, Lula, aqui não é o Maluf que está falando. Não é o Maluf por que? Porque sou eu, o Fernando Henrique, não é?
   - Xi!
   Neste momento o presidente coloca a mão no bocal do telefone para abafar sua voz. E é nessas horas que a gente percebe que falta pode fazer um dedo. Cardoso acaba ouvindo tudo o que se passa do outro lado da linha:
   - Porra, Delfim, evidentemente que não é o Maluf, é o pentelho do FHC mesmo. E agora o que é que a gente faz?
   - Isso tudo é uma asneira monumentaaal. Desliga esta meeerda e bota a culpa na privatização da telefoniiia – comenta, fleumático, o conselheiro do presidente.
   - É, mas é preciso que se diga que as teles estatais eram cabides de empregos para funcionários públicos, aquele maldito bando de sangue-sugas do governo.
   E o presidente volta a falar com o torneiro mecânico:
   - O que é que manda, compagnon FH?
   - Olha, não se preocupe. Não se preocupe por que? Porque eu não quero pedir nenhum favor. É verdade. Só estou ligando para lhe contar uma grande novidade, não é?
   - Qual? Que a gente não pode aumentar o salário mínimo senão o Brasil quebra? Que sem o PMDB a gente não consegue governar? Que se a gente quiser se reeleger vai ter de comprar uma porção de gente? Que o banheiro do nosso gabinete vive entupido?
   - Naturalmente que não. Bom, é que já faz uns dias que eu estou trabalhando como torneiro mecânico em uma grande indústria,não é?
   - Que bom! A gente fica muito feliz por você, amigo. Aliás, aproveitando que você ligou, poderia dar uma ajuda pra gente?
   - Naturalmente que sim. Quer saber como definir estratégias de governo, não é? Promover desenvolvimento sustentado, criar relacionamentos sólidos com países estrangeiros...
   - Não, não, na verdade a gente quer saber como se diz em francês “ô, garçom, esta champanha está choca!”
   - Lamentavelmente eu esqueci. É verdade. Mas eu também tenho uma dúvida: como é que se faz o cálculo de desalinhamento do cabeçote móvel?
   - Como é que a gente vai saber?
   - Ora, é evidente, você não foi torneiro mecânico?
   - A gente foi, mas hoje somos Presidente da República. Por isso não confunda as coisas.
   - Me perdoe, por favor. Aliás, gostaria imensamente que vossa excelência viesse almoçar comigo na fábrica. O nosso bandejão é excelente, principalmente na quarta. Na quarta por que? Porque na quarta eles servem uma buchada de bode sensacional.
   - Infelizmente a gente não vai poder. Estamos indo para Paris receber o título de honoris causa na Sorbonne e evidentemente só vamos voltar depois de comer todo croissant que a gente puder encontrar.
   - ULA-LÁ!
   - LULA-LÁ pra você também!
   - Mudando de assunto, é verdade que você está concorrendo a uma vaga na ABL?
   - É preciso que se diga que sim.
   - Mas você já publicou alguma coisa?
   - Só de medidas provisórias foram...
   - Bom, mas você não ia acabar com elas?
   - É, mas você, mais do que ninguém, sabe como são as coisas por aqui. A gente pega o gostinho, depois fica difícil largar.
   - Não há dúvidas de que sei.
   - Quer um conselho? Vire líder sindical. Não é como ser presidente mas tem uma mordomia ou outra que compensa. Sem contar que você nunca mais vai precisar trabalhar na vida.
   - Bom, para falar a verdade neste momento sou candidato à presidência em uma chapa do sindicato dos metalúrgicos. Mas o pessoal anda dizendo: olha, é preciso pensar bem porque um candidato tão instruído pode por tudo a perder, não é? Sem contar que o fato de não ter a língua presa vai acabar com uma tradição de anos.
   - Que preconceito!
   - Evidente que é! E tem até um sindicalista dizendo que se eu ganhar no dia seguinte centenas de operários vão embora do ABC. Bom, mas o meu guru acredita que eu vou conseguir reverter este quadro, não é?
   - Seu guru?
   - É, o Babá...
   - Sei, sei... E qual é a sua agenda?
   - Bom, basicamente está sustentada na defesa intransigente da unicidade sindical e na manutenção e ampliação do Imposto Sindical, não é? Sem esquecer a questão das enormes perdas provocadas pelo plano Real.
   - Mas isso é um absurdo!
   - Absurdo foi você mandar a polícia usar de extrema violência contra o MST, não é?
   - Peraí, isso é diferente. É preciso que se diga que aqueles desocupados invadiram o campinho de futebol da Granja do Torto. Isso num domingão de sol e bem ao lado da churrasqueira. Desta vez eles foram longe demais. Evidentemente o ataque do meu time não é dos melhores, mas daí a dizer que a área do adversário é terra improdutiva foi uma provocação inaceitável.
   - É, amigo Lula, sinto dizer mas você já não é mais o mesmo, não é?
   - Que  bom. Já imaginou se a gente ainda fosse torneiro mecânico?
   - Não há dúvida de que nem consigo imaginar.
   - Bom, FH, a gente precisa desligar. O Quércia está aqui para o nosso joguinho de pôquer e não podemos deixar ele sozinho na mesa com aquele monte de fichas, você sabe, né?
   - Claro, claro, Lula, fique a vontade. Olha, passando em São Bernardo, apareça lá em casa. Apareça lá em casa por que? Porque vai ter um cafezinho fresquinho esperando por você, não é?
   - Obrigado. Você também quando passar por Brasília, venha tomar uma taça de champagne aqui com a gente e com o Bornhausen. Mas liga antes, tá?
   - Evidente que sim.
   - Adieu, mon ami.
   - Até breve, companheiro.


Henrique Szklo é escritor nas horas preenchidas e araponga nas horas vagas


Artigo publicado em maio de 2003 no site do Clube de Criação de São Paulo

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