Batendo com amor

Quem bate, ama. Quem apanha, é amado.

     Nas profundas e inquietantes reflexões que empreendo a respeito da relação milenar entre o homem e o cão, vez por outra me deparo com verdadeiros achados. Tesouros escondidos do comportamento contemporâneo. Devo confessar, entretanto, que boa parte destas descobertas são fruto de extremada sorte em razão do acaso sobre o qual florescem. Não-raro decorrem de momentos em que me permito entregar a devaneios irracionais ou momentos de pura abstração metafísica. Recentemente me ocorreu uma delas que julguei deveras interessante e assaz pertinente. Em razão disso, gostaria imensamente de compartilhar este novo horizonte que se descortinou com vocês meus leitores, fiéis como cães que são.

    Antes de iniciar meu relato, hei de reconhecer que o conteúdo de meus comentários poderá e deverá causar uma certa polêmica e não acredito ser totalmente impossível uma reação extremada e indignada vinda de alguns extratos de nossa sociedade repressora e reprimida. Mesmo assim, não recuarei. Já fui mordido por cobra, mas não tenho medo de lingüiça! Ao contrário: assumo aqui, de público, meu papel e minha responsabilidade de intelectu-au atuante, socialmente engajado e totalmente comprometido com a verdade dos fatos, características elementares que orientam a crença filosófica que defendo, o cinofilismo dialético. Não me furtarei jamais em expor a realidade à luz dos fatos. Morda a quem morder.

     Evidentemente, a premissa básica de minha teoria está verticalmente baseada na relação pessoal e íntima que desenvolvo com um ser humano mediano chamado Henrique. Sem grandes arroubos de inteligência e a sensibilidade de um membro adormecido pelo diminuto fluxo de sangue em suas artérias, este indivíduo se presta perfeitamente ao papel de cobaia de minhas experiências sensoriais, filosóficas e sociológicas. Além do mais, seu desequilíbrio emocional foi o principal fator desencadeador de minhas reflexões sobre o assunto, já que por qualquer mínimo deslize ou distração de minha parte, “o couro come”, como vocês humanos vulgarmente costumam afirmar.

     Bem, chega de rodeios e vamos logo ao ponto. Hoje não tenho mais a menor dúvida: a violência é irmã gêmea do carinho. Bater é uma forma primária e primal de afagar. O tapa na nuca é o primo pobre do cafuné. Toda vez que o Henrique me agride, sinto que sou amado. E quanto maior a agressão, maior o amor. Ninguém espanca a quem não ama. Ninguém se daria o trabalho de despender tanta energia por alguém que não nutrisse alguma forma de carinho. Dá para sentir nos olhos vermelhos, nas veias saltadas do pescoço, nos pelos eriçados, no olor proveniente do suor azedo que o sentimento é profundo e poderoso. E apesar de não compartilharmos de uma afinidade intelectu-au, eu e meu pretenso “dono” somos o que se costuma chamar de “unha e carne”. Adoro quando ele me atinge com um sapato, um telefone, um jornal de domingo, uma lista telefônica. A apatia dele diante de um ato impensado de minha parte é preocupante. Sinto que nossa relação esteja eventualmente em perigo. Uma seqüência de palmadas bem dadas em meu traseiro ou na minha barriga proporcionam um verdadeiro êxtase, nada relacionado ao sexo, que fique claro. Minha relação com Henrique é puramente metafísica. Somos apenas bons amigos.

     Falando em tapinhas no traseiro e sexo, outro fato que comprova minha tese se encontra nas observações que faço ao assistir os atos libidinosos de Henrique com suas fêmeas. Estas, na totalidade dos casos, compartilham comigo a sensação de afetividade oriunda de uma palmada bem dada. Nas primeiras vezes que presenciei tal evento, meu impulso foi o de subir na cama e salvar a pobre donzela das garras do tirano. Mas como fui rechaçado violentamente, me resignei em ser apenas um observador atento. Notei, entretanto, que todas elas aprofundam seu prazer após os tapas em seus traseiros. Algumas até solicitam o castigo. O choque inicial se transformou em compreensão da situação. E da compreensão passei rapidamente para a aceitação e defesa radical.

     Por Snoopy, me recuso, terminantemente, a crer que qualquer destas manifestações estejam desassociadas de amor, carinho e respeito ao próximo. Já posso ver, entretanto, os politicamente corretos levantando suas bandeiras sem contrastes, tocando suas cornetas sem amplitude harmônica, lançando brados ferozmente contidos contra a minha forma de pensar. Mas não tenho temor em afirmar que o que estes indivíduos precisam é de umas boas palmadas para se sentirem amados uma vez na vida e deixarem de se preocupar com bobagens.

MAX JÁ NÃO
É MAIS O MESMO


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