Manifesto de um ácaro
contra o amor

Ele é feio mas come todo mundo

     O amor é uma merda! Me dá até alergia respiratória só de pensar. Não, querido leitor, eu não sofri uma decepção amorosa, não sou mal-resolvido nem estou com dor de cotovelo. Até porque nem cotovelo eu tenho. Eu sou um ácaro, pelo amor de Deus!

     Esse meu ódio, essa minha repugnância, esse meu nojo pelo amor nada mais são do que resultado de pura reflexão intelectual. Uma questão pragmática, eu diria. Quase dialética. Na verdade, chega a ser uma questão de sobrevivência. Ou nós, ácaros, acabamos com o amor entre as pessoas, ou o amor vai acabar com a gente. Simples assim.

     Esta excrescência que é o amor, mesmo nas mais simples e singelas demostrações, já é para nós um inferno em vida. Começando pelo cafuné, por exemplo. Aparentemente tão inofensivo e despretensioso, não é? Mas veja pelo nosso ângulo. Estamos lá, desfrutando de um resto de couro cabeludo, uma gordurinha capilar ou até mesmo uma saborosíssima caspa. Quando de repente, sem mais aquela, aparecem unhas e dedos gigantes que ficam jogando a gente de um lado para o outro sem parar. Imagine-se num restaurante que não deixa você ficar sentado em sua mesa. Fica jogando você de um lado para o outro, por horas a fio. É in-su-por-tá-vel. Faça-me o favor! Será que dá pra deixar a gente comer sossegado?

     Só de ficar de mãozinhas dadas, os humanos já acabam com a nossa alegria. Na hora que as mãos se tocam e se apertam, expulsam o oxigênio entre elas e nós ficamos sufocados. Por um tempo dá até um barato ficar sem oxigênio, mas se o amor é grande e as mãos ficam muito tempo unidas, bye-bye, so long, farewell.

     Um pouco mais grave é o abraço. E quanto mais apertado e demorado, mais perigoso para nós, os ácaros. Não sei o que é pior: ficar na frente sendo esmagado vivo ou ficar nas costas onde uma mão enorme te esfrega pra cima e pra baixo por uma eternidade. Isso sim que é dor de amor.

     A partir daí a coisa começa a ficar extremamente complicada. O beijo, ah que raiva que eu tenho do beijo. Um desentupidor de pia gigante que suga a gente sem a mínima cerimônia. Fora o barulho, que é ensurdecedor. Imagine uma boca gigante em seu ouvido dando um beijinho estalado. Eu mesmo já não ouço bem de um ouvido por conta de beijos calientes dos quais participei sem pedir. Aliás, você vivem dizendo “eu queria ser uma mosquinha para saber o que está acontecendo lá”... pois é. Entre nós, os ácaros, costumamos dizer que gostaríamos de ser uma mosquinha para NÃO saber o que está acontecendo. Queremos distância da paixão. Dá pra entender ou não?

     Mais a pior de todas as manifestações de amor, sem dúvida é o sexo. Não existe nada mais revoltante que amor com sexo. É uma carnificina impiedosa. Pega a gente de tudo quanto é lado. Se a gente tá na cabeça de um, vem uma mão e esfrega na gente. Se a gente está no travesseiro ou no lençol, é violência e agressividade. Raspa daqui, joga dali, esfrega acolá, aquele vai-e-vem insuportável... Um fica chupando e lambendo o outro (argh!), o que embrulha nosso estômago de um jeito... você já tomou um banho de saliva? Pior, já se viu em meio a uma enchente de saliva? Não dá nem pra explicar a sensação. Tietê é fichinha.

     A bunda da mulher, então, é um lugar perigosíssimo para se freqüentar. Os tapas que despencam por lá matam milhões e milhões de companheiros em questão de segundos. Um verdadeiro massacre.

     Mas o pior lugar mesmo para ficar são os pêlos pubianos, meu Deus do céu! O que aquilo ali esfrega é uma ignorância. A fricção naquela região faz a temperatura subir de forma estratosférica. Que aquecimento global, o quê? Experimenta estar nas partes baixas de um homem ou de uma mulher durante o intercurso. O ácaro que não morre lá mesmo fica inválido para sempre. A gente torce pro sujeito ter impotência, pra mulher estar com dor de cabeça ou, no mínimo que o cara tenha ejaculação precoce. Sabendo disso você pode imaginar porque a gente não pode nem ouvir falar em uma tal de pílula azul...

     É, não há mesmo um lugar onde um ácaro de respeito possa ficar em segurança, com seus milhões de amigos e familiares, curtindo uma pelinha morta numa boa. Enquanto houver sexo, seremos sempre atingidos, lamentavelmente.

     Olhe, e não pense você que os ácaros têm algum tipo de restrição ao sexo. Conceitualmente, eu quero dizer. Não, os ácaros estão longe de serem moralistas. É claro que existem exceções. Existe uma espécie de ácaros que não se reproduz com sexo. São apenas fêmeas botando ovos. Mas aquelas pobres meninas são feministas recaucadas que acham que deram certo, mas que não têm a menor idéia do que é o orgasmo, tadinhas... Ácaro, como todo mundo, adora sexo. Mas tem de ser sexo seguro, ou seja, a distância. Esse negócio de sexo virtual, pela internet para nós foi um verdadeiro achado. Para você ter uma idéia existem membros em nossa espécie que atingem a maturidade sexual em apenas dois dias. Legal, né? O único problema é que a gente tem uma média de duas relações sexuais na vida, o que pra você pode ser pouco, mas lembre-se que vivemos apenas 2 meses. Ácaro gosta tanto de sexo que costumamos dizer que podemos ser feios, mas comemos todo mundo. É, a gente adora tirar uma casquinha de vocês.

     O amor entre os de sua espécie é a perdição para os da nossa. É por isso que eu digo: abaixo o amor! Vamos dar um basta neste desperdício de energia sem sentido! O amor não serve pra nada, só faz todo mundo sofrer. O amor é nosso carrasco, nosso fascínora, nosso Hitler. Milhões de ácaros indefesos tombam a cada mínima manifestação afetiva de nossos cruéis hospedeiros. É preciso acabar com essa pouca-vergonha. Só porque a gente é microscópico não quer dizer que não tenhamos direito à vida.

     Mas ainda há esperança. Até porque, como vocês bem sabem, o amor não dura para sempre, se Deus quiser. É, meus amigos, a conclusão a que se chega é que vocês são bem gostosos, mas muito perigosos. Se continuar assim, vamos acabar virando todos vegetarianos.

Henrique Szklo é escritor e tem alergia a ácaros


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